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Do alto de sua varanda gourmet na Vila Nova Conceição, o executivo enxergava o Parque Ibirapuera. Acendeu um Davidoff, depois de virar dois ou três goles de Jack Daniels Honey. Não entendia o motivo, mas gostava de beber essa porcaria. Alguns copos todas as noites para desacelerar. Um comprimido de clonazepan antes do último gole para garantir as poucas horas de sono.

Seu ritual era solitário. Rebobinava lembranças das suas glórias profissionais. Acima de tudo, era um executivo de sucesso. Sua vida inteira resultava dessa condição.

Gostava de exercer poder sobre os outros, em especial sobre os jovens profissionais. Lembrou-se de três episódios recentes. Três talentos promissores cuja carreira prejudicou.

O primeiro deles foi decisivo na implantação de uma nova operação de vendas no centro-oeste. A diretoria prometeu-lhe o cargo de gerente regional caso entregasse a meta. Deixou a família e a própria saúde de lado por onze meses. Foi substituído apenas quinze dias depois de reportar um resultado três vezes maior que o esperado. Para surpresa de poucos, o executivo indicaria um protegido seu para assumir a operação.

Houve também o caso da jovem analista financeira. Quando soube que ela seria promovida, o executivo invalidou o processo seletivo. Tinha planos futuros para aquela vaga.

Por fim, aconteceu com o estagiário de quem todos gostavam. Garoto humilde e bom de serviço. Estudava, trabalhava e via o resto do dia passar dentro dos transportes públicos. Seu contrato não foi renovado. Deu lugar para o sobrinho do executivo, que pouco faz e muito reclama.

A vaidade esparramava-se pela sacada junto com a fumaça aromática do charuto aceso. Nenhuma outra percepção era tão tangível quanto submeter o destino alheio aos seus humores.

Sabia jogar o melhor e o pior do jogo corporativo.

Ocorre que essa gente da nova geração era talentosa. Não demoraria até ganhar poder, pensou em silêncio. Sua canalhice haveria de ter volta. Precisava antecipar e neutralizar qualquer movimento contrário. Afinal, todos aqueles que chegaram onde ele chegou haviam conquistado o direito de subjugar qualquer um que ameaçasse frustrar seus objetivos individuais. Bastava-lhe essa convicção.

Valia a pena? Pela primeira vez pensou que talvez não valesse. Não seria melhor entrar em contato com dois ou três amigos headhunters para sondar o mercado? Daria menos trabalho escolher um novo desafio profissional do que continuar acumulando inimizades em uma mesma empresa. O mercado conhecia sua fama e pagava bem por seus resultados.

O próximo passo talvez fosse desacelerar. Já havia conquistado demais. Era apenas uma fantasia, sabia bem que essa não era sua vontade, mas, de algum modo, pensar nisso lhe fez bem.

Adormeceu feito criança. Seria assim o sono dos justos?

Não existiu próximo passo. Sua aorta explodiu como um balão de aniversário que alguém soprou além da conta. Mal houve tempo para pedir ajuda. Telefonou para a emergência, deixou a porta da rua aberta e tombou no tapete da sala. O alarme ao lado da cama, programado na noite anterior, ainda tocava quando os médicos entraram no apartamento e encontraram seu corpo já sem vida. Morreu só. Aneurisma na aorta abdominal, escreveram na certidão de óbito.

Em um ônibus empacado no trânsito da Radial Leste – às dezenove horas e quarenta e três minutos daquele mesmo dia – o estagiário de quem todos gostavam conferiu as notificações em seu celular e sorriu.

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