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O romancista segundo Haruki Murakami

Reuni alguns conselhos de Haruki Murakami, um dos melhores e mais produtivos escritores do nosso tempo, para aqueles que desejam ir além da escrita recreativa e pensam em se dedicar ao ofício de narrar histórias e escrever romances.

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A obra de Haruki Murakami me impactou pela primeira vez quando, por indicação de um amigo, li o excelente Do que eu falo quando falo de corrida. 

Murakami, um experiente maratonista, começou a correr na mesma época em que resolveu se dedicar à escrita. Do que eu falo quando falo de corrida é uma reflexão personalíssima sobre a influência da corrida em sua vida, em sua carreira e, em especial, em sua produção literária.

O curioso é que me debrucei sobre a obra como um alívio para um período de muitas leituras técnicas e porque queria inspiração para uma volta pessoal ao esporte. 

Mirei no que vi e acertei no que não vi. Procurei o maratonista e descobri o escritor (um dos grandes do nosso tempo).

Haruki Murakami é um dos autores japoneses mais bem sucedidos em seu próprio país e internacionalmente. Sua obra passeia pelo romance, pelos contos e pela não ficção. 

Murakami também é conhecido por mesclar elementos de sua cultura de origem a temas universais, sempre com uma narrativa de sotaque global (motivo que já lhe rendeu certa antipatia por parte dos seus conterrâneos mais tradicionalistas).

Autor prolífico, vem publicando e ganhando prêmios com admirável regularidade desde o início dos anos 1980.

Para quem quer começar a navegar por sua obra recomendo o ótimo Norwegian Wood, a trilogia 1Q84 e o já citado Do que eu falo quando falo de corrida.

Anos mais tarde, quando eu já conhecia o autor, decidi ler um livrinho curto em que Murakami destila seus conselhos sobre escrita e sobre o mercado literário. Mais uma grata surpresa.

Romancista como vocação começa focado na figura do escritor para só depois abordar questões ligadas ao ofício de escrever, ao mercado literário, à função das premiações e à carreira literária.

O primeiro capítulo, centrado na figura do escritor, já teria valido a leitura. É uma pérola.

Reuno a seguir alguns bons conselhos de Murakami para aqueles que desejam ir além da escrita recreativa e pensam em se dedicar ao ofício de narrar histórias.

Do que é feito um romancista?

1. Escritores são orgulhosos e competitivos

Escritores são basicamente egoístas, orgulhosos e muito competitivos entre si. É necessária uma certa dose de individualismo e autoafirmação para escrever algo digno de nota. Nas palavras do autor, a maioria dos romancistas pensa: “o que eu faço ou escrevo está certo. Todos os outros escritores estão errados, em maior ou menor grau, exceto em alguns casos especiais”

Por outro lado, quando se pensa na exclusividade da profissão, em outras palavras, em uma “reserva de mercado”, os autores são generosos.

Isso quer dizer que quando profissionais de outras áreas decidem se aventurar em escrever ficção, via de regra, serão bem recebidos pelos outros escritores.

Não é preciso conhecimento especializado para escrever uma boa história. Trocando em miúdos, “o romance se parece com um ringue de luta livre onde qualquer um pode entrar como quiser”.

2. A natureza do trabalho do escritor

Subir no ringue pode parecer fácil, mas permanecer nele por muito tempo, não. Para o autor, escrever um ou dois romances não é muito difícil, mas continuar escrevendo por muito tempo e viver disso é uma tarefa árdua. O número de escritores que permanecerá escrevendo romances após vinte ou trinta anos será sempre pequeno.

Murakami atribui isso à natureza da atividade.

Narrar uma história é uma atividade que deve ser executada em uma velocidade baixa, em marcha lenta. No limite, e com certo exagero, podemos dizer que “o escritor é aquele que tem necessidade de fazer o que é desnecessário”.

O ofício do romancista é converter em narrativa algo que existe no interior de sua consciência. Tal processo não é objetivo, pressupõe idas, vindas e tempo de maturação.

Profissionais com vasto conhecimento técnico, gênios que já possuem conclusões sobre seus temas e acadêmicos têm muita dificuldade quando escolhem o formato da narrativa para compartilhar suas mensagens.

No longo prazo, o ritmo deles não é o mais apropriado para escrever romances e a narrativa não é o veículo mais adequado para comunicar mensagens com contornos previamente bem definidos.

3. Quem é o romancista?

Haruki Murakami defende que aquele que conseguir passar pelos vários pontos de transição impostos pela natureza do trabalho de criar histórias irá crescer como escritor e provavelmente viverá desse ofício ao longo dos anos.

Bons romancistas estão escondidos nas partes desnecessárias e cheias de rodeios que envolvem criar cenários imaginários.

Mas se isso é verdade, seria o escritor desnecessário nos dias de hoje?

Não, pois o mesmo mundo que necessita de coisas eficientes e ágeis continuará precisando das coisas ineficientes e com rodeios.

Na visão de Murakami, o mundo seria distorcido sem uma dessas faces da mesma moeda.

Produzem romances as pessoas que desejam escrever, que não conseguem ficar sem escrever.

Eu não poderia concordar mais, afinal vivo repetindo por aí: “um escritor não escreve porque quer, escreve porque precisa”.

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