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Crônicas, ficções e exercícios de escrita criativa. Afinal, a vida não é só trabalho.

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Aconteceu às vésperas do Natal. Eu estava na fila dos Correiros para enviar alguns exemplares do meu livro para compradores de outras cidades. Imagine você minha satisfação ao constatar que, mais uma vez, pessoas presentearam e foram presenteadas com meus escritos na noite de Natal. Asseguro que qualquer exercício de imaginação resultará apenas em um vestígio do meu contentamento. Perdoe-me pelo aparte autorreferente, quero mesmo é contar sobre o senhor que esperava na fila logo à minha frente. Continuemos.

O cavalheiro aparentava já ter passado dos oitenta. Vestia-se de maneira sóbria: camisa azul clara de linho, calça de sarja e sapatos de couro marrom.  A postura ligeiramente arqueada denunciava o peso dos anos. Ainda assim seus modos distintos continuavam intactos. 

Fomos companheiros de espera durante alguns minutos. Quando chegou sua vez, pude ouvir a demanda: 

– Por gentileza, gostaria de comprar vinte selos para envio das minhas cartas. 

– Senhor, nós não vendemos selos avulsos mais. Enviamos as cartas, mas não podemos vender os selos separadamente. O senhor só conseguirá comprar selos avulsos na agência central. 

– Ah, minha querida, obrigado pelas informações. Terei de ir até a agência central para comprá-los, então. Do contrário, corro o risco de que minha correspondência não seja entregue antes das festas. Tenha um bom dia. 

O diálogo despertou minha memória afetiva. Revivi a sensação escrever e receber uma carta. Tive, e ainda tenho, vários amigos filhos de militares. Garotos e garotas que mudavam de cidade a cada dois ou três anos. Gente com raro talento para fazer e manter amizades. Trocar cartas era uma forma recorrente de continuarmos presentes nas vidas uns dos outros. 

Posso assegurar ao leitor mais jovem que a comunicação instantânea das mídias sociais entregou em praticidade o que roubou em afeto. Meditávamos durante dias sobre o teor da mensagem a ser redigida à mão para uma pessoa querida, esperávamos outros tantos para receber qualquer resposta e sentíamos o coração bater mais forte quando o carteiro entregava uma correspondência inesperada. 

Penso por um instante nas cartas rasgadas por paixão ou desleixo, e também naquelas que se perderam nas correntezas do tempo. Bom seria encontrar, perdidas no fundo de uma gaveta qualquer, algumas dessas mensagens. 

A função dos Correios passou a ser entregar boletos e mercadorias compradas online. Uma carta nos dias de hoje é um fragmento de um mundo que não existe mais. Lirismo em estado puro.

Que nunca faltem selos para as criaturas que insistem em expressar seu bem-querer de próprio punho. Bem-aventurados aqueles que ainda recebem uma carta. 

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